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NÃO SÓ DE PÃO VIVERÁ O HOMEM

Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!” Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!” Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e lhe disse: “Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar”. Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto”. Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.
Contam a história das tentações de Jesus, logo depois do Batismo – Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas de uma maneira mais elaborada. Devemos lembrar que estes relatos procuram expressar uma experiência particular de Jesus, e não devem ser interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista. Ligando as tentações ao batismo de Jesus, os evangelistas frisam que a sua experiência é como a nossa própria – nós também temos compromisso com o projeto de Deus, particular e comunitariamente, mas entre o nosso compromisso e a sua concretização de uma maneira coerente com o seguimento de Jesus, existem muitas tentações, que exigem discernimento! O texto diz que Jesus era “conduzido pelo Espírito ao deserto”(v.1). O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas o acompanha nas tentações. Como o Espírito Santo não o abandonou no momento de crise, mas lhe dava força, tampouco vai nos abandonar nos momentos de crise e discernimento. O início das tentações se dá no deserto. Mateus quer evocar a experiência de Israel, pois para ele Jesus era o Novo Moisés, e a Igreja é o Novo Povo de Deus, e podemos lembrar que no deserto o povo foi tentado e sucumbiu – mas Jesus é tentado e vence! Olhando bem as tentações, podemos encontrar neles três grandes tentações também para a vida cristã: as do “Ter”, do “Poder” e do “Prazer”. As tentações de Jesus não são para coisas que são más em si, mas que causariam desvios do plano do Pai. Não é diferente com a vida cristã hoje – raramente somos tentados a assumir algo mau em si, mas sim a fazer opções para coisas boas em si, mas que seriam incoerentes com o projeto de Deus para nós! A tentação vem de forma sutil, disfarçada – vale notar que nas três tentações o diabo não nega a identidade e missão de Jesus, mas as confirma “Se és Filho de Deus...” Também para nós, a tentação pode se apresentar como algo que não nega a nossa identidade cristã, mas que seja condizente com ele. Por isso a necessidade da “vigilância” para não cairmos em tentação, uma advertência constante dos evangelhos. Primeiro, Jesus era tentado a mandar que uma pedra se tornasse pão. Jesus veio para doar-se como o Servo de Javé – mas logo, no momento do primeiro sacrifício por causa da sua opção, ele é tentado a esquivar-se! É a tentação do “prazer” hoje – entre as mais comuns, num mundo que prega a satisfação imediata dos desejos, numa sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Estamos numa sociedade de individualismo, onde a regra dominante é “se deseja, faça”! Uma sociedade onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como a ladainha dos perdedores! E a resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”(v.4). Jesus enfrenta esta tentação – e as outras – com citações tiradas de Dt 6-8, que versam sobre a primazia da Palavra de Deus como o alimento do seu povo na caminhada. Jesus aqui dá o verdadeiro sentido do seu jejum – Deus é o único sustento da verdadeira vida. Jesus, possuído pelo Espírito de Deus, confia no seu Deus para sustentá-lo. A obediência de Jesus como Filho e Servo (cf. Hb 5,7-8), simbolizada pelo jejum, é agora verbalizada. Jesus confia que o seu Pai vai sustentá-lo em todos os seus sofrimentos e tribulações, provenientes duma vida coerente com a sua vocação. Uma bela lição para nós, nos momentos difíceis da nossa caminhada cristã!
A pessoa humana, para Jesus, vive certamente de pão – mas não só! Jesus não é sádico nem masoquista, contra o necessário para uma vida digna. Salienta muito bem que não é somente a posse de bens (simbolizados pelo pão) que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a fidelidade à vontade de Deus, a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais – precisamos de ambos para que se tenha a vida plena! Com esta frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade e a solução dos problemas do mundo na simples satisfação das necessidades materiais, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos – duas tendências não ausentes entre nós cristãos. A segunda tentação é de confiar no poder – fazer milagre diante de milhares, para demonstrar o seu poder. A tentação do poder é tremendamente insídia (triçoeira) em nós, na sociedade e nas Igrejas. Jesus veio como Servo, assumiu a missão do Servo de Deus o Pai, mas é tentado a confiar mais no poder, no extraordinário, e não no Deus Libertador e nos pobres. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da Cruz, para “evangelizar”! Quanta aliança entre a cruz e a espada – a América Latina que o diga! E continua corrente esta tentação – de confiar mais nas concentrações nos estádios cheios, com “milagres” e “prodígios”, do que nos grupos pequenos e humildes das comunidades cristãs, dirigidas pelos pobres, espalhadas pelo Brasil afora! Somos todos capazes de cair nesta tentação – não de ter o poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, aparentemente mais forte e eficaz do que a fraqueza de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava com força “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(1 Cor 1,25) e ainda: “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte”(1 Cor 1,27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo Sofredor e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo, o tentador, com a frase “Não tente o Senhor seu Deus!”(v.7). A terceira tentação pode ser vista como a do “ter”. Não que o dinheiro seja algo ruim – sem ele não se vive! Se torna um mal quando chega a ser um ídolo – a fonte de nossa auto-suficiência! É ruim quando se fundamenta a vida sobre ele. Jesus não é tentado a ser um ricaço – mas é tentado no sentido de fugir da sua vocação de ser o messias, tão esperado pelos pobres de Javé, e profetizado por Segundo-Isaías, Zacarias e Sofonias. É tentado a acreditar mais no poder da riqueza do que na pobreza dos seus futuros discípulos da Galiléia. De novo, algo muito semelhante com a nossa situação atual. Nós temos que viver o nosso compromisso no mundo da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, os meios da comunicação de massa trazem para dentro das nossas casas – inclusive casas religiosas – a mensagem de que é necessário “ter mais”, e não importa “ser mais”! E como sempre, a tentação vem de forma atraente – até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que poderão ser usados em favor da missão, garantirá uma ação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir as pegadas do carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes nós somos tentados a confiar no poderio do dinheiro, como se a compra de instrumentos e aparelhos cada vez mais sofisticados garantisse a evangelização. É certo que devemos utilizar o que a ciência moderna nos fornece, mas sem confiar nisso como o fundamento da nossa missão. Jesus enfrentou essa mesma tentação – ele que veio para ser pobre com os pobres, para manifestar o Deus que opta preferencialmente por eles, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo – e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá”(v.10). Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. O “ter”, o “poder” e o “prazer” são coisas boas, quando utilizados conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar o que nós hoje enfrentamos – o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. E o texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer ser fiel a sua vocação cristã: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá”(v.10). O texto nos ensina que Jesus, Filho e Servo, vencerá a hostilidade à sua missão pela sua fé obediente, e libertará as pessoas dominadas pela força do mal. Mas a tentação não era de um momento só – voltará mais vezes na vida de Jesus, como nas nossas. Aparecerá de novo no caminho de Cesaréia de Filipe, no Horto das Oliveiras e especialmente na Paixão – a suprema investida do diabo! Diante das várias opções disponíveis, diante dos diversos modelos de messianismo, Jesus teve que discernir a vontade do Pai. É o desafio da vida cristã hoje. Medite nisso. e Que Deus abençoe a sua vida Sempre.

ZS.

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